
"Não quero brincar com ele porque ele é preto. Minha mãe disse que eles fedem" - dizia um amiguinho meu quando eu tinha uns 9 anos. Foi a primeira vez que presenciei o preconceito, mesmo sem entender ainda o que era aquilo. Não lembro se contei pra minha mãe sobre aquele comentário. Mas se tivesse, certamente ela iria falar que aquilo era algo muito errado, afinal somos de uma família multi-racial. Apesar de eu ser "branquelo", pois a família da minha mãe é descentende de alemães, por parte do meu pai é uma mistura que nem ele sabe ao certo explicar. Tem espanhol, negro, índio e sabe-se lá mais o quê. Ele é moreno, mas alguns dos vários irmãos são negros. E quem olha pra mim nem suspeita dessa mistura que tenho na família. Tive uma educação livre de preconceitos
raciais graças a isso.
Um fato relacionado ao tema que teve certa repercussão na mídia brasileira recentemente foi a carta aberta enviada pelo presidente da ABGLT - Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais - , Toni Reis. Na carta, muito cordial e muito bem argumentada (
leia aqui ) trazia em seu conteúdo um pedido de mais cuidado na forma como Faustão tratava os gays nos quadros de seu programa, com comentários aparentemente inofensivos que todo mundo já conhece. Os famosos "bicha", "boiola", "veado", como pode-se ler na íntegra no link. Em resposta à carta, Faustão falou ao vivo durante o programa, elogiando a cordialidade de Toni Reis, mas salientando que não vai deixar de fazer comentários desse teor, alegando que "se achar que tudo pode ser politicamente incorreto, vai ficar muito chato". Encerrou com uma ironia apresentando as video-cassetadas "só com morenas burras para não correr o risco de a Associação das Loiras reclamar".
Minha pergunta é: por que então Faustão não faz piadas com negros, chamando-os de macacos e outras palavras da mesma acidez (que eu repudio, estou apenas exemplificando)?Ora, a resposta é muito simples. Os negros já passaram por muita coisa que os gays passam hoje. Ainda sofrem preconceito sim, mas já lutaram e
conseguiram seus direitos
previstos em lei. Hoje, qualquer pessoa que discriminar outra pessoa pela sua raça (seja qual for) pode sofrer um processo judicial e é muito provável que perca, sendo obrigado a pagar indenização ou até a ser preso. Isto posto, não se vê mais tantos comentários preconceituosos sobre negros como se via há 10, 15 anos atrás. E é por isso que o Faustão não se arrisca a fazê-lo, porque com certeza um repertório novo a seu favor faria do seu programa menos politicamente correto e "menos chato", segundo sua própria teoria.
No caso dos gays é bem diferente. Ainda lutam por seus direitos, já que trabalham, pagam impostos e são tão cidadãos quanto qualquer outro indivíduo. Ainda não há uma lei que criminalize a homofobia no Brasil. Está em andamento uma campanha com abaixo assinado para a aprovação do
Projeto de Lei da Câmara 122/06 (
assine aqui ).
O caso das mulheres é a mesma coisa. Durante milênios foram tratadas como inferiores (e ainda são, de forma mais amenizada), mas desde o movimento feminista nos Estados Unidos, muita coisa mudou e hoje eslas podem trabalhar, votar e fazer qualquer coisas que os homens fazem. Ainda há muita coisa que elas devem fazer, pois o fato da média salarial delas ser menor que a dos homens em cargos iguais é uma das provas de que ainda são discriminadas.
Sou muito utópico em relação ao mundo. Ainda vejo no futuro um mundo onde ninguém seja discriminado por qualquer motivo. Onde as piadas sejam apreciadas somente quando não ferirem os direitos e a situação de ninguém. Sei que isso vai demorar. Muita gente fala que comentários do tipo "boiola", "veado" são completamente normais e sem mal algum inserido neles, mas são esses preconceitos implícitos que envenenam a sociedade. Chamar um negro de macaco também era muito normal há décadas atrás, afinal eles foram até mesmo tratados como escravos.
Tente ver no seu dia-a-dia as situações onde as pessoas ao seu redor e você mesmo possui um pensamento preconceituoso, seja qual for o alvo discriminado. Quanto mais tratarmos esse tipo de atitude como "normal" e "inofensivo", mais o mundo irá no caminho contrário da igualdade e dos direitos humanos.
Enquanto isso, quem sofre menos nas mãos dessas brincadeiras são os pobres animais que tem seus nomes usados pra representar piadas de cunho tão retrógrado.